Construção do personagem: O terapeuta

Repensar no papel de terapeuta e entender que somos humanos antes mesmo de profissionais… tudo isso e mais você encontra neste artigo tão bem escrito pela Psicóloga Camilla Angelim. Vem conferir!


Passamos a faculdade inteira aprendendo como agir como um Terapeuta:

“Terapeuta tem que ser imparcial”

“Terapeuta não pode chorar!”

“Terapeuta não pode brincar com o cliente.”

Seriedade na postura!

Somos advertidos pelos nossos professores a questão da seriedade e ética com nossa postura de psicoterapeuta. Convido primeiramente a você, estudante de psicologia ou recém-formado, a anotar em um papel o que implica a construção desse personagem, como visualiza a postura na prática clínica. Provavelmente palavras sinônimas de rigidez, impessoal, neutralidade e suspensão de a priores. A ideia primordial é que precisamos praticar o distanciamento com o cliente (“lembre-se ele não é seu amigo”).

Então com o tempo e a experiência na clínica percebi que essa neutralidade retira a qualidade de um encontro terapêutico. Clientes não procuram alguém que não está implicado com sua dor, buscam alguém que compartilhe seu sofrimento de forma verdadeira. É claro que o terapeuta precisa se afetar, não somos robôs sem sentimentos, diz respeito à expressão de humanidade e acolhimento.

terapeuta
Sobre chorar na sessão:

O cliente percebe o quanto o profissional também está envolvido em sua situação e caminha junto com consigo. Vale ressaltar que seu papel é de ser suporte naquele momento, enquanto o cliente se desestabiliza, mesmo o terapeuta se afetando, não pode haver trocas de papéis ao ponto do cliente ter que sustentar a situação e ser seu pilar. Este é o momento dele desabafar e se entregar. Então é preciso que você esteja preparado para segurá-lo. O seu choro pode ser simbólico por um momento de emoção, mas não desesperador.

Para ser um profissional sério não é preciso ser alienado.

A alienação interna no personagem tensão, preocupação, dureza e inflexibilidade. Viver não tem script, como a sessão de terapia (que trabalha com relatos da vida) poderia ter? Psicólogo, você precisa ser mais natural. Ser VOCÊ. Quando se está aberto a espontaneidade do profissional que atua junto com o saber científico do comportamento humano, o atendimento se transforma em mais fluído pela retirada do formalismo. Devemos prezar por um contato mais próximo do cliente para que adquira confiança.

Fantasia do cliente:

O cliente acredita que o psicólogo vai analisar tudo! Muitas vezes nosso trabalho não consiste em grandes descobertas ou de insights profundos, pode ser um abraço sincero. Busca terapia para se sentir seguro em um ambiente para falar suas angústias e ser recebido com um profissional atento e engajado em seu processo é fundamental.

O que se vive no setting terapêutico é qualitativamente diferente do que se vive em outros momentos da vida pessoal porque exige uma dedicação ativa do psicólogo. Por exemplo, não é apenas olhar distraidamente quando lhe chamam, é olhar com a alma prestando atenção nos detalhes. Buscar relações menos técnicas e mais humana, agir com engajamento concreto na experiência do outro.

Na terapia, existe um nível de presença tão forte e sincera do espaço de ser doar na atenção e na fala. É um forte exercício dialógico que em vez do cumprimento da formalidade cordial de “como você está?” perguntado apenas por hábito e educação, o terapeuta está interessado em escutar seu discurso de forma aprofundada e contextualizada, em estar verdadeiramente presente no momento do encontro, no relato de sua história, com escuta ativa e intervenções, dando suporte a demanda psíquica. E essa postura autêntica incentiva o cliente a lançar-se no abismo para SER ao sentir-se seguro em se expor.

A relação precisa ser verdadeira.

A insegurança do terapeuta com o novo precisa também ser trabalhada em sua terapia pessoal. Lembro-me do meu primeiro atendimento. A ansiedade que estava de como seria, que seguir todas as orientações de forma perfeita para ter o mínimo de chance de cometer uma gafe. A preocupação maior era: “Ela não pode saber que é a minha primeira vez como psicóloga clínica”. Então, com receio de cometer uma indiscrição involuntária, observei cada detalhe da sala. Cheguei à conclusão de que tudo estava organizado e arrumado demais! Ela iria perceber que era meu primeiro atendimento! No mesmo momento a campainha tocou. Ela era! Já tinha chegado! A deixei aguardando uns minutinhos em pé lá fora e coloquei o travesseiro quase caindo do sofá, o tapete dobrado e a mesa afastada. Acreditava que ia disfarçar melhor. O nervosismo foi tanto que a cliente também ficou tensa.

Ao nos acomodarmos, com o passar da sessão, foi relaxando e percebendo que eu precisava era me autorizar naquele papel de psicóloga. Eu precisava acreditar que eu era capaz de ajudar alguém diante minha qualificação.

Qual sua abordagem mesmo?

Quando essa pergunta me chega costumo pontuar que o importante para o cliente deve ser avaliar o modo que se sente incluído nessa relação. Se houve empatia, vínculo emocional, acolhimento, olhar atento. Sentiu confortável para expor seus pensamentos de forma livre? O ambiente é acolhedor? Teve espaço para corrigir algo que foi interpretado de maneira equivocada? Como se sente no final?

Conclusão: agregue personalidade a sua profissão

Apesar de vivermos a faculdade se podando, até mesmo quando escrevemos um artigo o pensamento não pode ser puramente nosso (tem que ter uma referência), é preciso colocar sua personalidade em seu trabalho, mostrando o ser humano que existe por trás de tanta teoria. Claro que é difícil e é necessário coragem para se “mostrar” já que em poucas vezes anteriormente se colocou.

A prioridade não é o que você diz, mas a forma como diz.

Os clientes querem se conectar com quem você é. O psicólogo Bruno Soalheiro, com sua página no facebook Empreendedorismo para Psicólogos discutiu sobre esse tema:

“Você é divertida, energizada e barulhenta? Não mate isso para tentar construir um personagem “sério”. Você é mais quieto, reservado e sério? Não cometa a loucura de querer parecer engraçado (…) Seja qualquer coisa, desde que seja VOCÊ. É isto que gera identificação e lealdade de quem te acompanha. As pessoas não querem ouvir sobre aquilo; elas querem ouvir o que VOCÊ tem a dizer sobre aquilo. Existe uma energia que cada um de nós é muito única, e que quando encontrada e explorada nos torna especiais e distintos naquilo que fazemos, mesmo que centenas de pessoas estejam fazendo “a mesma coisa”. Só que você precisa deixar essa energia aparecer.”

Ana Cecília Coelho

Ana Cecília Coelho

Mentora e psicóloga
Romae