Você é muito nova para entender…

Alguns pacientes chegam nos avaliando e nos perguntando se o fato de não termos passados por questões similares, não poderia prejudicar nosso entendimento sobre sua situação.

Julliana Angelim trás que não é bem assim. Precisamos quebrar algumas ideias sobre o Psicoterapeuta e ela faz isso muito bem.


Quantas vezes nós, terapeutas iniciantes, recebemos esse comentário de um cliente de idade mais avançada? É comum as pessoas apresentarem essa resistência ao verem um terapeuta jovem e imaginarem que essa questão comprometeria o desenvolvimento do nosso trabalho. A questão é que, ainda que eu (terapeuta) viva 150 anos, eu poderei facilmente não passar por esse cenário que o cliente me descreveu. De fato, é preciso trazer ao processo terapêutico essa discussão se o cliente eventualmente raciocinar dessa forma.

Nosso trabalho é realizado a partir da leitura que cada cliente nos traz de acordo com sua interpretação.

Sim, claro que não tomamos como verdades absolutas e fazemos questionamentos acerca do fenômeno relatado, mas o conteúdo inicial que se revela é o discurso de cada um. Então eu questiono: “Você acha que eu necessariamente preciso passar exatamente pelo que você passou para poder entender?”.

Que tal desenvolver a habilidade de expressar corretamente e descrever sua experiência ao outro?

É também trabalho da psicoterapia desenvolver relações menos técnicas e mais humanas, agir com engajamento concreto na experiência do outro. Existe um nível de presença tão forte e sincera do outro na atenção e na fala. Dialogicidade significa atitude de abertura que facilita o encontro: a palavra falada dirigida ao outro fundamenta a existência do ser. É preciso mobilizar o cliente a expor verbalmente seus sentimentos.

Claro, aí entra outro ponto fundamental que é o setting clínico, que diz respeito ao espaço físico (se a pessoa se sente confortável, segura, tranquila) e relacional (se a pessoa se sente acolhida, não tem medo de julgamentos ou que você comente com alguém). O ambiente deve ser favorável e íntimo ao processo de análise e exposição.

Assim, nós psicólogos podemos sim compreender alguém pela capacidade do cliente de detalhar seu discurso. Também, além do nosso arcabouço teórico, empatia, sensibilidade, confiança e vínculo, existe algo mais que é levado em consideração:

Nós seres humanos temos a ESSÊNCIA que experimenta esse fato relatado em OUTRA VIVÊNCIA.

  • Exemplo 1:

Cliente: “Você sabe o que é ser mãe?

Terapeuta: “Sei o que é ter responsabilidades, expectativas familiares, cuidados sobre alguém. Independente de ter essa titularidade específica, já tive uma experiência semelhante dessa vivência de ser mãe.”

  • Exemplo 2:

Cliente: “Você não vai entender porque nunca enfrentou um divórcio…

Terapeuta: “Mas já passei pela frustração de ter alguém muito amado que partiu e tive que refazer uma nova identidade com as mudanças que ocorreram.

  • Exemplo 3:

Cliente: “Você não sabe como é ser limitada fisicamente.

Terapeuta: “Já passei por essa situação de dependência com o outro e com o ambiente de outras formas semelhantes e consigo entender sua angústia.

O que podemos concluir com esses exemplos citados acima é que, na ESSÊNCIA, eu já vivi tudo o que é humano (ontológico – propriedades mais gerais do ser da natureza plena e integral; sentido abrangente do ser que torna possível as múltiplas existências). Assim, a bem da verdade, nada me é completamente estranho!

O cliente precisa saber que você o compreende. É nosso papel validar o seu relato e entender como ele se afetou diante dessa experiência particular. Cria-se uma condição de abertura existencial quando o outro chega.

Terapia é um espaço no qual o cliente pode se desenvolver e se potencializar.

Muitas vezes os clientes querem nos provar o tamanho do seu sofrimento por essa experiência única que passaram e, de certa forma, é até mais confortável para eles saberem que são diferenciados nesse processo de dor. Esse movimento de justificar o quanto é difícil vem das suas outras relações que não oferecem espaço para essa dor ser sentida.

Vejamos quantas vezes um amigo está compartilhando uma história triste e nossa atitude é de amenizar o problema. Julgamentos à parte, nossa sociedade não nos ensina a lidar com a angústia de um momento ruim e isso é desesperador. Já é árduo poder falar sobre algo íntimo e tenebroso com alguém de confiança, e quando é conversado tal fato, a postura comum é de dizer que “isso logo irá passar”, para “não dar tanta importância”, ou pior quando vem “comigo foi mais difícil e eu consegui passar logo…”.

Nós psicólogos somos acostumados com a dor; ofertamos espaço de acolhimento e escuta qualificada.

É preciso validar o que o cliente nos traz, com uma postura compreensiva, como por exemplo: “Imagino como deve ter sido doloroso para você ter que passar por isso, pode me dizer mais sobre a forma que te afetou nesse momento?

Terapeutas iniciantes carregam constantemente a ideia de que precisam dar a solução para seu cliente, porém a felicidade não tem receita pronta.

A verdade é que alguns clientes até já tem plena ciência do que devem fazer, mas querem apenas alguém para compartilhar sua caminhada e se permitirem fortalecer um pouco mais com o decurso do tempo. Inclusive, isso pode ser citado no contrato terapêutico, quando você investiga quais as expectativas dessa pessoa com a psicoterapia. Estamos rodeados de pessoas que opinam qual a melhor trilha a seguir ou como deve ser feito. Psicólogos vão contra essa postura. Auxiliamos com recursos psicológicos esse processo de escuta interior e responsabilização pelas escolhas individuais.

Para finalizar, não deixemos que alguém diga como nosso trabalho é limitado e até onde podemos ou não ir. Seja um profissional assertivo e seguro do que te compete, até onde vai sua atuação e o que é exigência do cliente. Sempre se mostre disponível para entendimento da narração e confirme se sua linha de pensamento está coerente com a realidade que ele traz.

A vida acontece de maneira singular para cada um, mas existe um PONTO COMUM entre a condição do SER que nos permite essa conexão.

Ana Cecília Coelho

Ana Cecília Coelho

Psicóloga Clínica
Romae