Silêncio no consultório – Reflexões sobre quando o cliente não traz nenhum tema

Em nossa atuação, existem momentos onde o silêncio impera e o cliente não trás nenhum tema. Nesses momentos será preciso que terapeuta e cliente possam descobrir juntos qual caminho a se seguir. A psicóloga Camilla Angelim trazer algumas reflexões sobre esse assunto. Confira.


Silêncio no consultório? E agora?

Somos orientados desde o começo da graduação de psicologia a receber livre demanda, e a partir de então, planejar uma atuação direcionada. Sendo assim, todo tipo de intervenção depende daquilo que o cliente apresenta como queixa. Precisamos, antes de tudo, que ele nos aponte o desejo de um destino – ou pelo menos, parte dele.

Aguardamos a resposta da pergunta inaugural “em que posso te ajudar?” para imaginar um possível curso do processo. Esperamos, na verdade, que ele nos diga aonde ir.

É aí que o cliente te pega de surpresa e diz: “eu não sei.”

(silêncio)

Como assim não sabe? E agora?

Ele não fazia ideia. Do que queria. Do que buscava. Do que estava fazendo e nem de como tinha chegado ali. Como poderia eu ajudar alguém que não sabe onde quer ir?

Foi então, que para meu espanto, percebi que o terapeuta é muito mais útil do que parece. Ele pode fazer mais do que dizem os livros. Não necessariamente nas formas conhecidas, mas nas que ainda não foram descobertas também e que você tem a oportunidade de estrear. Que honra. Eu poderia ajudá-lo sim. E muito.

“Ótimo! Vamos descobrir juntos então!”

Primeira sessão

Na primeira sessão, o vínculo já conquistava seu espaço. E no final dela, eu sosseguei num sorriso quando ele me confirmou a compreensão da mensagem em sua profundidade e inteireza:

“Obrigado. Pela primeira vez eu não precisei dar respostas prontas. Foi me permitido não saber. E é assim que eu me sinto, mesmo quando digo algo, me sinto perdido. Cheguei aqui sem saber o que fazer e nem se queria fazer algo. Mas agora eu sei o que quero: um lugar onde eu possa não saber e não querer nada.”

Desvendamos nosso primeiro mistério. Juntos. E sabe do que mais? Foi muito mais emocionante!

Mas tá, e quando não é um cliente novo? Você já conhece suas demandas e mesmo assim ele diz:

“Não tenho nada para falar na terapia hoje”

“Não aconteceu nada de novo”

“A mesma coisa de sempre”

Muitas vezes os clientes têm a errônea ideia de que só se fala de problemas na terapia.

Crenças erradas na terapia

É cultural esse pensamento, né? Vai para a terapia quem tem problemas.

Como se os problemas não fizessem parte da condição humana. Talvez sejam até eles que nos igualem a todos como seres humanos. Sou humano, logo, tenho problemas.

Mas se eu puder fazer um pedido, não deixem seus clientes cometerem esse pecado. Porque será falta do terapeuta, de não ter esclarecido o funcionamento do processo terapêutico. E esse tipo de dúvida tem que se desfazer logo no contrato, no mais tardar, nas primeiras entrevistas.

Falar de coisas positivas

Na psicoterapia, o cliente tem que ter a oportunidade não só de falar do que está dando errado, mas do que está dando certo também. Porque é no que está preservado que investimos muitas vezes. É onde se encontra nossas habilidades e potencialidades maiores.

É preciso que ele saiba falar da sua existência por completa e do campo de possibilidades que o cerca. Da sua totalidade.

Até porque, vemos o ser como um todo. Tudo isso faz parte do mesmo ser. O bom e o ruim.

E o terapeuta pode então perguntar sobre. Algo que o cliente já trouxe como alegria, prazer, saudade ou desejo. Retome. Às vezes uma simples lembrança desencadeia um turbilhão de material clínico.

“Não deu tempo pensar no que eu tenho que falar.”

Perfeito.

É nesse script não planejado que aparece a espontaneidade, muitas vezes podada. Deixa livre. Deixa emergir o que vem a ele nesse momento. O que está em evidência.

É mais importante o como você está se sentindo naquele momento do que como estava antes. É o aqui. E o agora. É o que somos sem representações. Sem maiores programações. É o ser em sua fidelidade.

A atualização tem que acompanhar o cliente em sua transformação e em seu movimento. No seu fluir e em sua natureza.

“Você já sabe como é né? Não preciso explicar.”

Por favor, precisa sim, eu gostaria que você explicasse. Uma simples cadeira tem uma representação significativa totalmente diferente para cada pessoa. Uma cadeira pode ter uma função, uma memória, uma imagem ou um sentido específico para cada pessoa. Vai depender da relação e do momento que ela teve com aquele objeto.

Quem dirá uma vivência.

As experiências são particulares. Quer ver?

Imagine você e seu amigo numa viagem. Vocês estão exatamente no mesmo lugar, comendo o mesmo prato, escutando o mesmo som e olhando para a mesma paisagem. Peço agora para que os dois descrevam o momento que passaram.

Como as impressões são diferentes! O que afeta cada um é íntimo e pessoal. Enquanto um se emocionou com a música, o outro nem escutou porque estava concentrado na comida deliciosa.

E digo mais, se um deles voltasse no mesmo lugar dias depois, as impressões seriam outras. Porque nós acordamos diferentes. Todos os dias. E o que não faz diferença ontem, pode nos tocar profundamente hoje.

Então não. Não ouse dizer que você já sabe como é. Seria uma pressuposição arriscada e pretensiosa, que possivelmente estaria errada.

Peça para que o cliente lhe explique e se esbanje em todos os detalhes. Questione.  Dilua as informações. Para que você compreenda o que lhe toca, o que mexe com ele e o que significa para ele. Assuma a sua ignorância da vida do outro. Ele vai sempre saber mais sobre ele mesmo que você. As perguntas nunca estarão esgotadas e longe de alcançarem a suficiência.

Saibam, que é a partir da diferença da visão do outro que ampliamos nosso campo de visão.

No fim de tudo, para mim está muito claro, quem aprende mais são os terapeutas. E que presente!


Conteúdo produzido pelas psicólogas Camilla e Juliana Angelim do @analogias.psi

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Ana Cecília Coelho

Ana Cecília Coelho

Mentora e psicóloga
Romae