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Maneiras de lidar com o cliente que não acredita que terapeuta possa ajudá-lo

06/08/2018
Como lidar com a ansiedade de quando o cliente dúvida que podemos auxiliá-los? Como mostrar qual é o nosso papel em quanto terapeuta e a maneira como trabalhamos? Essas e outras reflexões você encontra neste artigo. Conteúdo elaborado por Julliana Angelim. Vem conferir!

Preparação para receber um cliente novo:

Era a primeira vez do cliente no meu consultório. Aquela ansiedade que gera em nós, terapeutas, de como será essa pessoa e o que a trouxe. Na verdade, o sentimento que prevalece é o de felicidade por ter alguém novo que dá um voto de confiança no meu trabalho. Sabemos que essa expectativa existe dos dois lados. “Será que nosso encontro conseguirá ser harmonioso? ” Pensei.

Empolgada com o futuro próximo que me esperava, fiz os 10 minutos de relaxamento, meditação e exercícios de respiração antes do horário marcado. Isso ajuda a entrarmos em sintonia e presença no ambiente da clínica.

Companhia tocou! Ele chegou.

Abri a porta e encontrei um olhar voltado para o chão, postura encolhida e com um andar arrastado. Vi que ali já não tinha abertura para um abraço inicial de boas-vindas.

“Pode ficar à vontade”.

Ofereci água, perguntei se a temperatura estava boa e se estava se sentindo confortável. Todas as respostas foram iguais e monossilábicas.

Silêncio.

Perguntas que estimulem o diálogo:

Terapeuta: “Em que posso ajudá-lo?”
Foi então a resposta surpreendente: “Nada.”
Pam!

O vidro da expectativa tão frágil se estremeceu. Vi o quanto estava sem esperança com sua vida.
Então perguntei: “E o que te fez vir até aqui?”

Ele, com um tom de voz sempre baixo, respondeu: “Confirmar minha certeza de que psicólogo não pode ajudar a resolver meus problemas.”

Foi então que compreendi, mais que teoria e técnicas ele precisava de acolhimento. Não achei que precisava dar uma aula dos benefícios da psicoterapia para uma pessoa logo no primeiro momento, meu papel ali era escutá-lo e oferecer presença verdadeira. Eu queria que ele entendesse que ele importava e que não estava sozinho.

Limites da terapia

Sim, a terapia tem limites. Esse processo é feito em dupla e nós, terapeutas, somos responsáveis pelo tratamento da vida daquela pessoa. Não podemos nos responsabilizar pela vontade de morrer de alguém, mas podemos cuidar e dar o apoio necessário durante o momento da vida.

Ele esperava uma resposta ou uma solução, mas encontrou apoio e segurança para se abrir ao pontuar o sigilo profissional.

Eu, no papel de psicóloga, precisei dar esse suporte inicial e mostrar uma certa paz no meio da tempestade. A terapia auxilia o autoconhecimento, lida com frustração, olha para a tristeza e então se fortalece para o cliente desenvolver seu auto suporte. Claro, até chegar aí é um investimento a longo prazo, trabalho de formiguinha.

Também é importante explicar que o efeito da psicoterapia não é o mesmo do remédio: a primeira olha para a causa do sintoma e o segundo anula sua existência por um período.

Terapeuta: instrumento desenvolvimento emocional

A depressão tem uma desvitalização muito grande do corpo, por isso exercícios corporais de relaxamento de tensão e respiração são tão importantes. Hoje sei que terapeuta é “acostumado” com a dor. Sempre somos nós que vamos ficar quando estiver só o cliente e sua angústia.

Devemos ser fortes para provocá-la, mas também compartilhamos desse sofrimento. A reflexão está em como esse sofrimento se implica na minha constituição como pessoa.

Nesse setting clínico ele teve a oportunidade de apresentar sua profundidade, de uma maneira tão íntima e sincera.

Contato com a dor

Fundamental é proporcionar para esse cliente a condição experiencial. É preciso entrar em contato com essa dor que está emergindo e nós somos facilitadores desse processo.

Cabe aqui o conceito de auto suporte que não é um exercício apenas de correção postural, é também de ampliação da conscientização; ou seja, você tem sustentação para utilizar seus próprios recursos e não se desorganizar.

Percebi em sua personalidade alguns pontos que pode desenvolver suas próprias condições de enfrentamento, acontece que o cliente está com a vista tão turva diante a dor que não consegue enxergar possibilidade de crescimento.

É exatamente aí que entramos: oferecendo escuta profissionalizada, presença verdadeira, empatia, questionamentos para provocar a reflexão, buscando compreender seu modo de funcionamento no mundo. Como é bom te ver crescer!

Afinal, em que a psicoterapia pode me ajudar?

No caso de ter uma sessão forte vivencial, podemos finalizar pontuando sim as funções do processo terapêutico no que diz mais de acordo com seu contexto:

  • Elaborar discurso permite que eu reveja minhas atitudes e dos envolvidos, elaborando minha história.
  • Responsabilizar-se por minha postura diante o que a vida tem me oferecido.
  • Promover autoconhecimento que auxilia nas escolhas.
  • Trabalhar as inseguranças e medos, o que é fantasia e o que é realidade?
    Reconhecer quais os recursos que tenho para enfrentar crises.
  • Saber onde está meu prazer em viver e quais minhas motivações.
  • Questionamentos sobre sua postura e visão no mundo.
  • Digerir traumas olhando para a dor.
  • Lidar com questões angustiantes.
  • Ter estabilidade emocional em momentos de crise.
Respeitar o ritmo do cliente

Cada um tem sua frequência e seu movimento. Estar ali, aceitar que precisa de ajuda e ir ao encontro de um profissional já pode ser um passo grande e doloroso. O silêncio é importante, tem algo ali dentro dele se movimentando.

Ter alguém que compreenda já é bastante significativo.
Mais que dizer que para quem sofre que “vai dar tudo certo”, devemos mostrar que “mesmo dando tudo errado, ainda continuarei aqui com você”.

Para finalizar, Freud resume bem o que tentei descrever: “A ciência moderna ainda não produziu um medicamento tranquilizador tão eficaz como o são umas poucas palavras boas”.


E aí, deu para compreender o nosso papel em quanto terapeuta e como lidar com as ansiedades frente ao nosso cliente? Se esse artigo te ajudou, não deixa de compartilhar com seus colegas!
Ana Cecília Coelho

Ana Cecília Coelho

Psicóloga Clínica

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