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“Terapeuta não é nem gente”. E é o que?

24/09/2018

Este conteúdo para todos os psicólogos que já ouviu algo como o título acima. Camilla Angelim elaborou este texto para nosso blog e ele está muito especial. Vem conferir!


Me diz uma coisa: como você pensa que é a vida de um psicoterapeuta? Eu não sei vocês, mas eu já escutei tanta coisa…

“Eu sei que você não sofre com esse tipo de coisa”, “você não toma bebida alcoólica, né?”, “você não chora por ninguém”, “e você acredita em religião?”, “você não faria nunca uma bobagem dessas”, “deve ser muito bom saber tudo que faz e o que o outro pensa”.

Hahaha! Dá vontade de rir.

Tudo isso faz parte da fantasia que mora no nosso inconsciente coletivo e é reforçado culturalmente, às vezes até mesmo nos filmes e livros. Aquele terapeuta que não mostra seus limites, suas dificuldades ou fraquezas. Tudo é muito fácil e claro para ele. Não há espaço para dúvidas ou receios. Ainda menos para falhas.

Aqui vai um segredinho: não existem terapeutas assim. Porque somos antes de tudo, humanos. Não, nós não fazemos mágica e nem somos magos. Não temos a previsão do futuro e não somos oráculos. Não somos super-heróis que consertam as coisas e impedem que aconteça o mal. Nem perfeitos. Muito menos blindados. Parafraseando o papai Freud “Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro”. Quem nunca sentiu isso? Aliás, alguém não sentiu?

Percebem? Saber que o terapeuta é humano não faz perder seu prestígio. Eu não preciso passar a ideia de “Suposto Saber” (lê-se: dona da razão) para que o cliente se sinta seguro e confie na minha palavra. Estamos longe de ser isso. Tantas vezes somos pegos de surpresa. Emocionamo-nos com um relato. Arrepiamo-nos com uma conquista. Ansiamos e torcemos tanto quanto nosso paciente por algo bom para ele. E por que isso tem que ser de forma velada?

Desde cedo, na graduação, aprendemos que nosso cliente não tem que saber nada da nossa vida. SEJA NEUTRO – eles disseram. Em parte, eu concordo. Aquele espaço não é para que eu coloque minhas questões junto com as do cliente. Essa mistura além de ser antiprofissionalíssimo, iria virar um caldeirão de conflitos. De fato, ele não tem e nem precisa saber do que acontece comigo. E se há uma necessidade minha em colocar isso e garantir esse espaço, talvez eu esteja no lugar errado.

Mas por que me podar a ponto de parecer que não sinto nada? Essa neutralidade é relativa, sabe? Ninguém é capaz de suspender todos seus a priores. Entendo que minha opinião, meu gosto e minha vontade devem ser colocados em outro plano. Mas meu tato, meu sentimento, minha intuição voltada para aquilo não. São ferramentas poderosas a favor do terapeuta!

Então eu luto tanto para que o cliente se sinta confortável e se esbanje na sua espontaneidade para oferecer exatamente o contrário a ele? Sinceramente, não vejo como funcionar isso. Não confundamos profissionalismo com distanciamento ou formalidade. Dessa forma, podemos cair nas armadilhas dos modos prontos de ser. E existe forma “certa” de ser? Certa para quem? Cuidado. Os grandes mestres já nos atentavam para isso: usem o exemplo de um terapeuta que se identificam para se inspirar e criar seu próprio modo de atuação, não para imitar e reproduzir um padrão.

Vamos aqui então a uma conclusão: é no partilhar com o paciente a mesma dor e alegria que nos aproximamos. E apresento minha face humana. Que sabe do que ele fala. Que é capaz de me colocar no lugar dele e ver uma saída. Sabe qual o sentimento que resulta disso? Acolhimento. Um belo: “Ufa! Alguém me entende. E parece que não está tudo perdido”.

Essa troca é essencial no processo. Não adianta só ouvir infinitamente. Uma hora o paciente te solicita. Convida-te a se colocar. E sejamos justos, a relação não é feita só de um. E é nesse intercâmbio de pensamentos, emoções e sentimentos que construímos juntos uma saída. Se acho que uma experiência minha pode contribuir no processo do meu cliente (com todas as ressalvas que se deva ter, considerando que cada um tem seu jeito singular de lidar e longe de ser um “eu faria isso no seu lugar”), mas acreditando que possa fazer sentido para ele, por que não compartilhar?

A relação terapêutica precisa de vários cuidados. Sabemos muito bem quais são eles. Decorados. Mas devemos lembrar que as regras devem ser orientações, em vez de serem mais um motivo para nos enrijecer. Quantos “não pode fazer isso” têm atrapalhado sua espontaneidade? Diz que sentiu falta do paciente que não pôde vir semana passada. Diz que é grato por ele estar ali. Abraça. Gargalha. Chora. Sente. Experiência com ele. O resultado disso é lindo. Parei de me preocupar em encontrar meus pacientes em cantos aleatórios, fora do setting terapêutico, quando descobri que podia ser eu mesma com eles.

Sempre tem gente do meu ciclo relacional pedindo indicação minha de terapeuta. E em relação a isso eu sou bem criteriosa, sabe? Não indico quem não conheço. Meu critério de indicação, aliás, é quem eu confio como ser humano, antes de terapeuta. Como poderia descartar isso? Não há como separar. E por mais que se tente esconder, o paciente tem uma leitura sua. Fico mais tranquila sabendo que meus pacientes sabem que sou como eles. Não preciso afirmar minha posição me sustentando em um patamar acima deles. Não sou melhor e nem mais certa que eles. Mas tenho disponibilidade e preparação para ajudá-los. E isso é suficiente.

Para encerrar, lembrei-me das palavras de Cyro Martins que dizem tudo isso em forma de poesia e gostaria de partilhar esse presente com vocês também.

“Pois fica decretado
a partir de hoje
que terapeuta é gente também.

Sofre, chora
ama, sente
e às vezes precisa falar.

O olhar atento,
o ouvido aberto,
escutando a tristeza do outro,
quando às vezes a tristeza
maior está dentro do seu peito.

Quanto a mim,
Fico triste, fico alegre
e sinto raiva também.

Sou de carne e osso
e quero que você saiba isto
de mim.

E agora,
que já sabe que sou gente,
quer falar de você para mim?”

Ana Cecília Coelho

Ana Cecília Coelho

Psicóloga Clínica

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